CONVOCATÓRIA

O Instituto Bem Te Vi escolheu para sua VI JORNADA INTERDISCIPLINAR um tema em forma de pergunta, articulada com o propósito de convocar e promover o diálogo entre as áreas do conhecimento que se ocupam de tratar, educar e pensar a humanidade que nos constitui. O que move nossas existências ao longo dos tempos? O que nos faz caminhar, amar, odiar, evoluir, fazer progressos em diversas áreas, retroagir em outras, aprender tanto e mais, não aprender, desaprender? Empreender guerras, construir a paz?

Considerando a complexidade das problemáticas, entendemos não haver um dizer total sobre os temas. Isso não retira a necessidade de cada especialidade refletir e aprofundar as questões acerca de seus objetos de estudo. Todavia, aponta para a importância da abertura de espaços de diálogos entre diferentes disciplinas, suas zonas de convergências e divergências, a fertilidade das interfaces e o valor das conexões entre áreas do conhecimento. Esse é um dos propósitos dessa VI Jornada.

Nos dias atuais, interpelam-nos afrouxamentos e acirramentos de ideais, construções de espaços de coletividade, situações que interrogam nossa civilidade, o ser entre cordialidades e barbáries. Tomamos o tema do desejo, questionando o que nos move como humanos, como linha a costurar essas dimensões, como diagonal a atravessa-las, revelando-nos desdobramentos que articulam diversas questões fundamentais ao homem.

Nesta convocatória, convidamos cada especialista a falar, a partir de seu lugar, sobre o desejo em suas relações com o amor, as solidariedades e as violências. Com a vontade de mudar, as superações frente às adversidades, as paralisações em que tantas vezes um humano se coloca. Ainda a partir dos retrocessos frente a avanços e conquistas tanto no plano da história particular de cada ser, quanto do ponto de vista da história da humanidade em seus aspectos sociais e culturais.

Sobre a incalculável capacidade humana de criar e de se reinventar. Nossa pergunta também convoca para pensarmos as sexualidades e as questões de gênero e mais as condições humanas de amparo e desamparo.

Aglutinadora de todos esses temas, propomos a noção psicanalítica de desejo. Inconsciente, o desejo não se constitui em um saber/acontecimento certeiro que incide sobre o corpo das pessoas, levando-as, diretamente, à busca de atingir um objetivo. Diremos que isso é da ordem do instinto. Para a sede, água; para o cansaço, sono; para a fome, o alimento. E para o sexo? A reprodução? O Desejo até pode se ancorar no instinto, porém dele se extravia. Refere-se à subjetividade; à fantasia que é a lente particular que cada sujeito usa para ler o mundo e tecer suas interpretações aos acontecimentos da vida.

Diremos ainda ser o desejo uma resposta do humano à falta que lhe é constitutiva. Desejo como polarização na dialética entre ser falado pelo Outro e poder dizer de si, da radical singularidade que o constitui. É em função da falta e na experiência do desejo, que o ser chega a um sentimento de si mesmo. Sua incompletude o impelirá, vida afora, a seguir desejante e, por isso, construtor de toda a complexidade que as cidades, a ciência, a História e as artes evidenciam como capacidade humana.

Convidamos os participantes da VI Jornada, que tomem o tema e tragam suas considerações a partir de diferentes pontos do conhecimento em que situam suas práxis. Convocamos os que se sentirem impelidos a construir seus textos e organizar suas considerações em forma de comunicação oral ou pôster e os que preferirem participar na condição de ouvintes e debatedores.

Caríssimos participantes, que tem vocês a dizer sobre a questão: “desejo: o que nos move afinal?

EIXO 1 – Fantasia, desejo e mídias

A todo o momento somos bombardeamos de informações: na televisão, nos celulares, nos computadores, nas interações sociais. Trazemos para perto quem está longe através das redes sociais; conhecemos as pessoas mais improváveis pelos aplicativos de paqueras; vendemos uma imagem nossa que, por vezes, não reconhecemos no espelho; recebemos e repassamos mensagens com as mais diversas notícias de toda parte do mundo (verdadeiras ou não).

A velocidade das notícias e das interações são proporcionais à amplitude dos laços que podemos estabelecer. A quantidade de informações e de interações, porém, não é necessariamente proporcional à qualidade das mesmas.

Tais mudanças implicam transformações nos modos do sujeito lidar consigo e com o outro, nos modos de consumo, na necessidade de reconhecimento, e tantos outros. Em tempos de exposição demasiada das intimidades, da presença (sem retorno) de dispositivos tecnológicos em nosso cotidiano, como se pode pensar a subjetividade contemporânea?

Esse eixo convoca a refletir sobre as mudanças nos modos de comunicação a partir do uso da tecnologia, da rapidez da informação, da ampliação dos laços sociais e da possível fragilidade dos mesmos na vida fora das telinhas. Trazemos à baila, portanto, a questão de como reconhecer o desejo e como esses novos modos de subjetivação têm afetado a construção da fantasia nos sujeitos.
 Sub-eixos:

1.1. Efeitos do uso dos dispositivos midiáticos na comunicação contemporânea

1.2. News e fake news? A internet entre a democratização da informação e a transmissão do conhecimento e a veiculação de informações superficiais e falsas.

1.3. Desejo de reconhecimento, inflação narcísica e as dificuldades com a alteridade

1.4. (Hiper)Conectividade e (fragilidade)  (d)os laços afetivos

1.5. Relações de consumo: dimensões da relação sujeito/outro na contemporaneidade.

EIXO 2 – O desejo e os tempos do viver: (a)temporalidade do desejo

Em cada período da vida experimentamos aprendizagens de naturezas diversas. Em tenra infância, aprendemos a falar, a andar; experimentamos nossas primeiras trocas afetivas e sociais; começamos a nos apropriar de nossa imagem, a construir nossa identidade. Na adolescência, descobrimos nossa turma, apaixonamo-nos, criamos, pelas vias da amizade, uma família que nós mesmos escolhemos. Adultos, lidamos com o trabalho, com a criação de uma família, de filhos e de um lar. Idosos, buscamos continuar tecendo a vida e transmitindo  conhecimentos e afetos.

A psicanálise, porém, aponta que o sujeito não tem idade. Na velhice, também temos a tarefa de nos (re)apropriar de nossa imagem. A aprendizagem e os modos de relacionar-nos com os outros e com o amor, nos atravessa em todos os tempos da vida.

Nesse eixo, convidamos para pensar sobre o desejo e suas particularidades em cada tempo da vida, bem como na subversão, própria do sujeito de desejo, da possibilidade de viver o infantil na velhice, o adolescer na adultez ou a velhice em tenra infância.

Sub-eixos:

2.1. Desejo e infância 

2.2. Desejo e adolescência

2.3. Desejo e idade adulta

2.4. Desejo e velhice

2.5. O sujeito tem idade?



EIXO 3 – As Relações de Amor e o Desejo

Parafraseando Neruda, “se nada nos salva da morte, pelo menos que o amor nos salve da vida”. Mas que salvação seria essa? O que falar a respeito desse tema sem cair na repetição do que já se disse? Como é preciso sempre dizer mais dele é inevitável, ao repetir, também inovar. Nesse eixo, abordemos a relação entre amor e desejo onde, a depender da situação, eles se aproximam, se distanciam ou se opõem.

O amor como fio que perpassa, que  costura e corta, que move, opera e transforma posições subjetivas. O amor produzindo  acontecimentos. Seja no corpo,  na vida desiderativa, nos modos de agrupamentos, nas construções dos laços afetivos, nas relações de aprendizagem, nas formações familiares, nas comunidades, no pacto civilizatório e na transmissão apropriação do conhecimento.

Diz Lacan, o amor faz suplência à inexistência da relação sexual. O amor como invenção, arrebatadora ou pacificadora, como possibilidade de lidar com o inevitável descentramento de si, com o desamparo fundamental, com a alteridade. O amor como encontro, “Almor”; O Amor como obstáculo, “amuro”; O amor como ódio, “amódio”; O amor e seus paradoxos. Não há amadurecimentos  no humano que garanta um saber fazer com o amor e o desejo.

 

Sub-eixos:

3.1 – O Amor e seus paradoxos

3.2  – Amor, Desejo e Sexualidades.

3.3 – A constituição do sujeito e os processos identificatórios

3.4 – Amor ao conhecimento e suas transmissões

3.5 – Desafios da inclusão


EIXO 4 – Desejo e violência

Que se pensa quando se trata de violência? De que trata a violência a outrem? E de que trata a violência do sujeito a si mesmo? Em que medida ela estaria vinculada ao desejo?

Podemos pensar a ação da violência a partir do não reconhecimento do desejo do outro, da alteridade, da diferença, levando a atos de tentativa de destruir o outro na intenção de apagar as diferenças.

Na contramão, pensamos na violência que é impor às crianças os modos de funcionar da sociedade, apresentar um mundo do qual ela não terá escolha senão habitá-lo. Uma violência constitutiva, que faz com que o sujeito partilhe do código da linguagem e do humano. A “doce forçagem”, como apresenta o psicanalista Maleval, que faz com que a criança seja introduzida à humanidade, às palavras, à cultura.

Pensamos ainda os excessos, a dificuldade do desejo sustentar-se como tal, o desejo de morte, o puro gozo. Por fim, pensamos na potência desejante, na capacidade de transformação de si e de seu entorno, a partir do reconhecimento do próprio desejo e do de outrem.

Neste eixo, propomos pensar a violência em seu caráter duplo e oposto: podendo ser destrutiva, mas também construtiva – e mesmo constitutiva do que é o sujeito e de sua subjetividade.

 Sub-eixos:

4.1. O não reconhecimento do desejo do outro: feminicídio, homofobia e outras formas de intolerância.

4.2. A violência: constitutiva e/ou destrutiva?

4.3. Desejo e adicção: as desmedidas do uso e as relações de consumo

4.4. O desejo como potência para transformação 


 EIXO 5 – O Desejo de ser outro e suas incidências sobre o corpo

Tecendo considerações sobre a escrita no corpo (tatuagens, cortes, desidentificação corpo/gênero, cirurgias plásticas etc.) como modos possíveis de enlaçamento e de marcar o percurso da pulsão, propomos que, para alguns,  evidencia-se assim,  o desejo de ser lido por outro. Também, uma tentativa de demarcação de unidade em meio a tanta diversidade. Atravessado pelo olhar que convoca, o sujeito se faz letra, demandando decifração e causando desejo.

Tratemos do que há de singular em cada sujeito no ato de marcar seu corpo: como escrita, as tatuagens não são facilmente apagadas. Poderiam representar uma sustentação duradoura numa época em que, segundo Bauman, tudo liquefaz-se? E quando falha o discurso que sustenta o pacto civilizatório, o que podemos dizer?

Nas automutilações, há quem banhe o corpo em sangue para dar voz à palavra. Nas cirurgias plásticas há um ideal do corpo e uma busca de integração com a imagem. Nas não identificações gênero/corpo, terapias hormonais e procedimentos cirúrgicos fazem do desejo de “adequação” uma possibilidade.

Sub-eixos:

5.1 – Escritas no corpo: tatuagens e automutilações
5.2 – Desejo de mudança, autoimagem e cirurgia plástica
5.3 – Questões de Gênero
5.4 _ Desejo e liberdade

EIXO 6 – O que será que me dá? Caminhos do Desejo

Como ordenar o desejo se, preferencialmente, ele faz desordem? Nos caminhos do desejo, o sujeito navega, alienado as causas que o determinam. O desejo apareceu em Freud, ao fundamentar o inconsciente. Caminhos são percursos, trajetos, errâncias… Ao contrapor causa e errância, Lacan propôs a causa como ruptura com a lei do desejo e como isso convoca ao ato como resposta, a partir das manifestações fenomênicas que podemos observar.

A causa portanto, como o que faz viver, o que produz enodamentos e articulações. A errância como deriva. A angústia da dor de existir sempre esteve presente no mal-estar da cultura. Os modos de resposta é mudam com o tempo. O que diz a nossa época em relação ao sofrimento perante às compulsões, drogadições, bulimias, transtornos de ansiedade e pânico, depressões, feminicídios e tantos outros modos de paralisação ou transbordamento do desejo e da pulsão? Dada a atração pelo sofrimento que as caracterizam, essas manifestações são o estopim para debatermos acerca das reações desmedidas e errantes e dizermos do desenlace entre o gozo mortífero (pulsão de morte) e o desejo que faz caminhar (pulsão de vida)

Noutra ponta da questão, para além da dor, entre liberdade e experiências de invenção de si e da vida, temos a  dimensão  da criatividade que habita todo humano. Capacidade que o faz criar não apenas sintomas, mas arte, civilização e ciência. Propomos pensar a criatividade como caminho do desejo. Esse que observamos desde bebê quando já encontra em suas “manhas” seus modos de sedução ao mais elaborada composição musical, poema, cena teatral, imagem trabalhada para ser uma mensagem visual, etc.

Sub-eixos:

6.1 – Novos sintomas: Transtorno de Ansiedade, Pânico e Depressão.
6.2 – Impulsividade e compulsões na contemporaneidade
6.3 – Pulsão de vida x Pulsão de Morte
6.4 – Desejo e criatividade
6.5 – Angústia e Errâncias do Desejo

6.6. – Gênios (In)domáveis: respostas originais ao “que será que me dá?”

SUBMISSÃO DE TRABALHOS:

 

Data: Até 20/08/2019

 

REGRAS PARA SUBMISSÃO – APRESENTAÇÃO ORAL E PÔSTER:

 

     Os trabalhos deverão ser enviados primeiramente em forma de resumo, contendo no

máximo 1.000 palavras, desconsiderando o título, o(s) nome(s) do(s) autor(es) e a bibliografia.

     Os resumos dos trabalhos inscritos deverão conter as seguintes informações: nome e instituição do(s) autor(es); breve nota curricular do(s) autor(es); o eixo temático e a forma de apresentação do trabalho – oral ou pôster.

 

TRABALHOS APROVADOS:

 

A comissão científica dará o resultado até o dia 23/08/2019.

 

A versão completa do trabalho deverá ser enviada por correio eletrônico, para o endereço  institutobemtevi.oficinas@gmail.com até 06/09/2019. Cada trabalho deve conter, no máximo, 9.000 caracteres, em Times New Roman, corpo 12.

 

NORMAS DE APRESENTAÇÃO DOS TRABALHOS:

 

Apresentação de Trabalhos Orais:

     Para as apresentações orais o autor contará com 10 minutos para a exposição do trabalho. Os trabalhos aprovados serão dispostos em mesas redondas, de acordo com o eixo temático ou por proximidade temática. Será designado para cada mesa um coordenador que organizará o debate, com duração de 30 minutos, após as apresentações.

 

Apresentação em Pôster:

     Para a apresentação em Pôster o autor deverá confeccioná-lo no formato de, no máximo, 0,90cm de largura por 1,20cm de altura.

     Haverá uma premiação para o melhor trabalho apresentado sob o formato de pôster.